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Diálogos pela imagem

Literatura - 17/08/2018
Diálogos pela imagem A fotografia sempre foi um instrumento de comunicação

Entre sexta-feira (hoje) e domingo, Salvador recebe um dos mais reconhecidos curadores na área de fotografia do país - o curador, fotógrafo e jornalista Eder Chiodetto, trazido a Salvador pela ACBEU para ministrar curso abordando a fotografia contemporânea, marcado com o evento a celebração do mês da fotografia. Parte das ações culturais mantidas pela associação, a oficina ocorre no Makerspace na ACBEU Barra (no Shopping Barra) e na Galeria ACBEU (Corredor da Vitória), e é voltado para fotógrafos profissionais e amadores com produção autoral. Cada vez mais socializada, acessível e disseminada, a fotografia se torna uma forma de expressão indispensável e, ao mesmo tempo, comum. Nem por isso, a expressão através dessa manifestação artística perde sua importância – pelo contrário. Em entrevista Eder defende o conceito de alfabetização visual como disciplina nas escolas, argumenta que os fotógrafos profissionais têm buscado nichos mais complexos para suas representações visuais, e fala sobre a fotografia baiana. 

- Acredita que, com o aumento do acesso à fotografia, ela passou a ser uma forma de se comunicar na sociedade atual?

Eder Chiodetto - Na sociedade atual não, a fotografia sempre foi um instrumento de comunicação, uma linguagem com estrutura autônoma. Mas com as facilidades empreendidas pelos processos tecnológicos das últimas décadas a maioria absoluta da população mundial passou a se expressar por meio de imagens como nunca havia ocorrido na história da humanidade. As pessoas deixaram de registrar apenas os momentos ritualísticos - festividades, viagens, entorno familiar, por exemplo - e passaram a fotografar massivamente o seu dia a dia e a expor  publicamente tais imagens, muitas vezes substituindo os relatos verbais e escritos pela iconografia. Hoje somos uma sociedade tão visual quanto verbal. Por isso acho tão fundamental que o conceito de alfabetização visual sejam empregado desde cedo como disciplina nas escolas. Se não entendermos o léxico das imagens para decodifica-las com visão crítica, corremos o risco de sermos dominados pelos poderes hegemônicos que se apropriam de certa ingenuidade ou ignorância das pessoas para criar um jogo de ilusões com finalidades perversas.

- Neste contexto, como tem se alimentado a fotografia como expressão artística?

Eder Chiodetto - O fato de hoje amadores fotografarem cada vez melhor pressiona profissionais da fotografia a encontrar nichos mais complexos para suas representações visuais, o que acho ótimo. Nessa toada, os artistas que se utilizam da fotografia como forma de expressão tiveram o seu campo de experimentação ainda mais ampliado: rompeu-se de vez parâmetros que polarizavam o documental e o artístico, a subjetividade e a objetividade, a verdade e a ficção. O fotógrafo contemporâneo agora deve saber se deslocar por entre as fissuras desses conceitos, pensado-os criticamente, poeticamente, politicamente.

- Há “regras” e “padrões” dentro da fotografia contemporânea, na sua opinião?

Eder Chiodetto - A regra é a liberdade total e o padrão a ser perseguido é o do bom senso e o da visão crítica.

- Qual o significado de curadoria para você?

Eder Chiodetto - A curadoria é a mediação entre o artista e o público. O curador deve pesquisar em profundidade a obra dos artistas e propor projetos em que a poética, o discurso, o ponto de vista particular de um artista ou de um conjunto deles chegue amplificado e de forma didática para o grande público. 

- Quais são as práticas que a curadoria envolve e que particularidades destaca neste trabalho?

Eder Chiodetto - Pesquisa constante, visita a ateliês de artistas para dialogar sobre os processos criativos de cada um, ter uma antena sintonizada para captar os movimentos comportamentais da sociedade contemporânea para saber como contribuir com os debates mais prementes por meios da arte, criar projetos a contrapelo dos podres poderes que nos cercam, ter foco na formação do público, abrir frente para novos artistas, não trabalhar apenas com artistas já consagrados, desafiar o status quo, não se deixar levar pelo canto de seria do mercado, mas também não despreza-lo, antes disso ajudar a fortalece-lo com ética e bom senso.

- Em seu contato com a fotografia baiana, como percebe a produção fotográfica local?

Eder Chiodetto - No mundo cada vez mais globalizado acho que cada vez menos podemos falar de produções fotográficas locais. Não acho que há uma fotografia baiana, paulista ou gaúcha. Tampouco uma fotografia brasileira. Posto isso, acho que a Bahia de Pierre Verger e Mario Cravo Neto tem menos fotógrafos de expressão nacional e internacional hoje do que potencialmente poderia ter. Muito provavelmente por falta de estímulos por parte das secretarias de cultura, de cursos de formação, de espaços expositivos e etc. Os fotógrafos e artistas baianos que se uniram e conseguiram reverter o fim do Prêmio Pierre Verger deram uma belíssima mostra de força e postura política. Quiçá essa união se mantenha para que a fotografia ganhe seu devido espaço no estado.

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