O principal embate entre governo estadual e oposição em Feira de Santana, hoje, concentra-se no viaduto que liga a avenida Nóide Cerqueira à BR 324. É que o equipamento, cujas obras estão em fase final, foi construído sem a pista de aceleração na rodovia federal. Governistas asseguram que a obra vai ser concluída em breve e que o adiamento se deveu às chuvas. E, evidentemente, exaltam a realização, minimizando o descuido; do outro lado, a oposição bate firme, ignorando a obra para centrar fogo na pretensa falha.
Nessa era virtual, as redes sociais funcionam como trincheiras e constituem o principal palco da batalha. É claro que, do debate, pouca coisa se salva. Afinal, é o espírito de gincana – ou a lógica binária nesses tempos modernosos – que regula as discussões. Aí avultam xingamentos, agressões, piadas e pouco conteúdo aproveitável. Questões essenciais vêm sendo tangenciadas no debate.
A principal delas é que, em grande medida, o quiproquó já constitui uma prévia das eleições para governador que só vão acontecer em meados do ano que vem. De um lado, estão o PT e Rui Costa, governador responsável pela obra e pré-candidato à reeleição; do outro, está ACM Neto, prefeito de Salvador, cuja candidatura é dada como altamente provável nos bastidores políticos. A contenda, em Feira de Santana, é entre os partidários dos dois grupos.
Ao invés de desperdiçar energia demarcando posições políticas – jogo estéril que constitui a regra no Brasil atual – seria mais interessante pensar, sob uma perspectiva mais construtiva, o desenvolvimento da Feira de Santana no longo prazo. Isso é algo que não se faz há décadas. O município sequer conta com um Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) atualizado, compatível com os dias atuais, conforme é queixa recorrente.
Os desafios avultam. Qualquer observador distraído é capaz de notar problemas que não apenas permanecem insolúveis, como sequer são discutidos. É o caso da avenida Contorno, objeto de promessas de duplicação há pelo menos 20 anos. Todo ministro dos Transportes que assume, empolgado, promete resolver a questão. Normalmente, não se vai além da empolgação inicial.
Há alguns anos, a concessionária que administra a BR 324 executou uma duplicação do trecho na região sul, entre as imediações do Tomba e a BR 116 Sul. A intervenção foi importante, contribuindo para desafogar o trânsito intenso, sobretudo de veículos pesados. Mas a medida, apesar de bem-vinda, é insuficiente, como se sabe. Afinal, todo o perímetro complementar da Contorno segue necessitando intervenção.
No início da manhã e nos finais de tarde, longos engarrafamentos se formam em praticamente toda a extensão da via. Ali se mistura o trânsito urbano com as imensas carretas que cortam a cidade em direção a outros destinos. Os incontáveis semáforos espalhados por sua extensão contribuem para a retenção do tráfego. Mais que engarrafamentos ocasionais, aquilo representa a rotina para muitos feirenses que perdem preciosos minutos, todos os dias, aguardando a lenta evolução da infindável fila de veículos.
A avenida de Contorno é apenas um dos aspectos da infraestrutura urbana que precisa ser pensado na Feira de Santana. Mas pensado com plano, com diálogo, com solução sustentável, de longo prazo. O debate corrente, hoje, se limita à mútua fustigação, centrada nas personalidades da política partidária, e não naquilo que é essencial, estrutural para a cidade. Isso pouca ou nenhuma valia tem. Mas é o que figura nas manchetes, que entretém a plateia imersa na dinâmica das gincanas.
Jorge Pomponet