Professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros
Num momento em que parece se insinuar um tímido processo de transição e abertura, num dos últimos bastiões do anticonsumismo, um dos estilistas mais renomados do universo fashion, Karl Lagerfeld, mostra, aos 82 anos, que continua inquieto e inventivo, sendo ainda capaz de apontar novas possibilidades para um mercado que muitos acreditavam saturado. Recentemente, o criador de moda fez duas ousadas apostas mercadológicas: elaborou uma coleção especial para a Riachuelo, investindo no mercado brasileiro, bem como abriu as fronteiras cubanas para a moda, com um desfile da Chanel, inspirado na cultura do país.
A coleção da Riachuelo conta com um total de 75 itens, que reverenciam o próprio criador e alguns de seus reconhecidos ícones (como a gatinha Choupette), num empenho produtivo altamente autorreferente. Investindo numa abordagem fast fashion, Lagerfeld dissemina sua marca, com peças que variam entre R$ 49,90 e R$ 349,90, consolidando seu estilo e sua própria imagem (que aparece estampada em blusas, calças e écharpes) para um público consumidor mais amplo.
A coleção se concentra no preto e branco, mas aparecem também cores como o amarelo, o cinza e o pink. Camisetas, blusas e regatas se mesclam a shorts, calças e blazers; terninhos de tweed, assim como peças de couro, que fazem parte do DNA criativo do designer, também comparecem na coleção. Entre os acessórios, temos bolsas, cluthes, braceletes, capas para celular, nécessaires e cadernos. Nestes itens, um pouco mais de colorido é incorporado.
Mas sua grande ousadia foi mesmo realizar em Havana, no último dia 03 de maio, um desfile midiático em que a maioria dos looks tinha uma referência masculina, com blazers bem cortados, gravatas e chapéus Panamá, no Paseo Del Prado, para milhares de convidados. Estes, por sua vez, foram conduzidos para o local do desfile nos icônicos Chevrolets conversíveis locais (conhecidos como carros rabo de peixe), extremamente coloridos, num espetáculo de rua para lá de performático.
A nova coleção resort da Chanel traz um frescor e uma irreverência, pelo colorido e pela ludicidade com que elementos da cultura local são incorporados aos itens, como as saias e vestidos com estampas de carros, num mix de cores, que transitam entre o rosa e o verde. As peças utilizam, sobretudo, imagens de objetos marcadamente locais, bem como frases que revelam aspectos da cultura cubana, num jogo de palavras, com referências a própria marca, como "Viva Coco Libre", numa alusão à "Cuba Libre". Na matéria-prima destaque para o crochê, muito usado em Havana. Merece também atenção a bolsa inspirada nas caixas de charutos cubanos, com logo em que aparece a imagem de Coco Chanel.
Se a moda Chanel vai pegar em Cuba ainda não se sabe, mas que a aposta de Lagerfeld foi genial não se discute. Reticentes, alguns espectadores locais declararam não entender o porquê da presença da marca em grande estilo em seu país. Outros, entusiastas, aplaudiram com vigor cada peça desfilada no Paseo Del Prado, ansiosos por se sentirem incluídos nas práticas de consumo. Paradoxal? Talvez. Mas o certo é que este é o sinal de novos tempos para Cuba: a moda proporcionou uma efêmera explosão de luxo, em um país que, em décadas recentes, passou por todo tipo de austeridade.
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