Zé Maria e seus compadres, Valnisia Machado e Geraldo Lima (Foto: Reprodução.
A classe artística feirense foi surpreendida com a notícia da morte do artista plástico cenógrafo, figurinista, e diretor de cinema Zé Maria, ou José Maria Ramos Bastos. O artista atuou durante o período áureo do teatro em Feira de Santana, na década de 60. Vítima de AVC, em Aracaju (SE), morreeu neste domingo. O sepulatamento ocorre às 14 horas desta segunda-feira (4). Zé Maria foi um dos destaques do livro "O Teatro em Feira de Santana, do jornalista Geraldo Lima, mostrando um pouco do seu perfil artístico.
Leia o texto, na íntegra:
A versatilidade de Zé Maria
Artista plástico, cenógrafo, figurinista, maquiador, decorador, modista, diretor teatral, cineasta, enfim, artista. Este é Zé Maria. Quase todas as montagens do seu grupo, a Scafs, traziam a sua assinatura em diferentes funções. Não economizava em criatividade e expandiu sua inquietude artística enfrentando e vencendo preconceitos em tempos de mudanças, mostrando a sua arte não só em Feira de Santana, como também em Salvador.
Entre uma peça e outra, testava a capacidade de se superar. Dirigiu Maria Helena, Ideval Alves e Luiz Arthur em “A infidelidade ao alcance de todos”, de Lauro César Muniz. Zé Maria juntou-se à modelo e esteticista Norma Suely e a modista Zelinha na I Exposição de Moda Alternativa. Mandou também para a passarela roupas com seus desenhos confeccionadas por Mila Novais no show-desfile “Mini-Mistério”, realizado no extinto Clube de Campo Cajueiro. Como modelos, desfilaram Maria Helena, Eliana Pitombo, Geraldo Lima, Vera Purificação, Dalva Ribeiro, José Nascimento, Ronaldo Santos, Raimundo Nascimento e participação especial de Antonia Velloso, sob a direção de Antonio Miranda e assistência de Ideval Alves. Na parte musical, o conjunto Os Trogloditas.
No espaço de apenas um ano, Zé Maria realizaria duas mostras, primeiro com “Leotrias” e em seguida “Intimidades”, com desenhos em nanquim. “A arte de Zé Maria expressa a vida e sua metamorfose. Ele não é artista que trabalha para o mercado. Isso vem depois. Faz apenas o que sente”, define o jornalista Dimas Oliveira escrevendo no convite para o coquetel da vernissage realizada no então Hotel de Turismo Carro de Boi, hoje Centro de Cultura Amélio Amorim.
No mesmo local, em dezembro de 1976, “Leotrias” preencheu o anfiteatro. “Zé pertence a uma geração que foi embora permanecendo aqui. Sua bomba implosiva explode no bico de pena”, escreve seu amigo Antonio Miranda.
Já em Salvador, onde trabalhou na TVE, Zé Maria foi para o Museu de Arte da Bahia, em dezembro de 1986, mostrar a Coleção Verão 87, incluindo na ficha técnica Norma Sueli (maquiagem) e Ailton Pitombo (cabelos).
“O que nos dá muita satisfação em relação a Zé Maria é que a cada trabalho por ele realizado sentimos uma ascensão de nível seja na cenografia, nos figurinos, caracterização ou através de suas exposições individuais. Um artista que não se deixa limitar pela boa aceitação da crítica ou pelos elogios dos amigos, ao contrário, faz questão de ser também um estudioso e um pesquisador em favor de sua arte”, expressou a atriz Nilda Spencer.
Voltando ao teatro, aliás, ao circo, em janeiro de 1985 Zé Maria voltou a reunir o cenógrafo, o figurinista e o maquiador no espetáculo “O ébrio”, de Vicente Celestino, apresentado no Circo Troca de Segredos, sob a direção de Antonio Miranda, que passara 12 anos “sem palco nem picadeiro”.
Senão sobre os palcos e sob as lonas, Zé Maria vai pra trás das câmeras no escurinho do cinema. Depois da primeira experiência (“Coisas do destino”), em 1975, voltou a acionar a super 8 para gravar “A divina maravilhosa e o vampiro celestial”, juntamente com Ideval Alves, estrelando Raimundo José, Verinha, Chuquinha, Gracinha, Mariamélia, Virgínia e Eliane.
Eis a versatilidade pulsante de um artista. “Grande Zé Maria, um talento impar. Inteligente, criativo, são tantas as qualidades de Zé que se for citar todas não paro nunca”, elogia a amiga Letícia Azevedo. “Nos trabalhos que ele participava, fazia do figurino à maquiagem. De repente, ele resolve ir morar em Salvador, e as vindas aqui em Feira foram diminuindo até a gente ficar sem se encontrar, só sabendo notícias através de amigos e irmãos dele. Algum tempo depois, ficamos sabendo por amigos em comum que ele havia sofrido um AVC”.
Geraldo Lima