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As topadas da educação

Educação - 11/02/2014

Por João Carlos Bacelar*

Os números não são animadores. Um em cada quatro brasileiros de 50 anos ou mais não sabe ler e escrever. Realidade cruel de um país que deveria apostar sistematicamente na educação como alternativa para modificar os indicadores presentes e as perspectivas futuras.

Acreditamos no ensino fundamental como a base das transformações mas como admitir que um adulto analfabeto possa acompanhar o desenvolvimento escolar dos filhos? Ou mesmo lhes oferecer uma vida melhor se a prática mostra que para aumentar a renda é indispensável garantir formação regular? A educação é um direito fundamental para o exercício pleno da cidadania. A ausência dela torna o sujeito muito menos exigente, sem sintonia com o que acontece à sua volta e sem capacidade integral de discernir pelo melhor caminho a seguir.

De todos os estados brasileiros a Bahia é o que detém a maior população de analfabetos em números absolutos. Segundo o Censo 2010 temos em nosso território mais de 1 milhão e 729 mil cidadãos que não sabem ler e escrever, ou seja, 16,6% do total de habitantes; já entre maiores de 60 anos o índice alcança absurdos 44% da população. São pessoas que deixaram cedo a escola para priorizar a sobrevivência através do trabalho.

O que nos incomoda é a incipiência de programas que despontam como salvadores da pátria e que mesmo com resultados baixos são propagados aos quatro ventos como infalíveis.

Nos incomoda ver na propaganda do governo da Bahia a maquiagem para enfeitar o Topa (Todos pela Educação). Desde o primeiro ano de gestão, o estado anuncia através do bem produzido filme em HD que tem um amplo programa de alfabetização de adultos, alcançando a marca de 1 milhão e 300 mil alfabetizados em sete anos, segundo disse o governador Wagner essa semana na Assembleia Legislativa, em mensagem preparada por sua assessoria.

Porém, o número de 1 milhão e 300 mil alunos alfabetizados vem sendo anunciado pelo governo desde o segundo ano de gestão. Na mensagem lida pelo governador consta ainda a informação que se matricularam no ano passado 130 mil alunos. Mesmo se levarmos em consideração que a propaganda tenha sido equivocada, os números não batem, porque a média anual de alunos alfabetizados em sete anos seria de cerca de 200 mil alunos e foram matriculados apenas 130 mil em 2013. São, portanto, números que não fecham.

Que estatística é essa que não considera uma tradicional evasão dos adultos na escola que beira os 90%? Qual é a mágica utilizada para que professores leigos, em espaços inadequados, consigam garantir uma frequência fantástica se nem mesmo em ambientes com infraestrutura e professores que recebem capacitação continuada isso acontece? Como retirar da cartola tantos números intrigantes e facilmente contestáveis?

A arma da propaganda parece ser ainda o melhor negócio para endossar o balanço de duas gestões consecutivas que não deram muita trela à educação haja vista os mais de 200 dias de greve e paralisações dos professores da rede estadual e da insatisfação generalizada dos docentes das universidades estaduais.

Mas não. Na página 14 da mensagem enviada à Assembleia está escrito que o orçamento das quatro universidades estaduais passou de R$ 460 milhões em 2007 para R$ 903 milhões em 2013, um salto de 96% em sete anos. No entanto, os professores se insurgem à toa? Estão errados em reclamar das condições salariais ou quando exigem atenção direcionada para suas carreiras? Se eles são a mola mestra do ensino porque o repasse não lhes chega para aliviar a distorção salarial?

A propaganda continua aí. Os analfabetos adultos também. Enfrentando as topadas da vida e aguardando por um futuro melhor.

*João Carlos Bacelar é deputado estadual da Bahia pelo PTN, ex-secretário de Educação da Prefeitura de Salvador, ex-vereador de Salvador, ex-presidente do Mobral/Fundação Educar

Aloísio Araújo Júnior/Acom

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