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O constelar da indignação e da cidadania nas ruas

Contos e Crônicas - 29/06/2013

Miguel Almir

 

Caminhando e cantando e seguindo a canção (...).

Vem vamos embora que esperar não é saber,

 quem sabe faz a hora não espera acontecer.

 

Geraldo Vandré

 

A explosão de manifestações que rebentaram por todo o país nos dias que antecederam as celebrações de São João parece se inspirar na postura irreverente de São João Batista que falava de uma “raça de víboras”, que denunciava as iniquidades da sociedade de sua época. A juventude, de modo altaneiro e irreverente, está indo às ruas imbuída da força mobilizadora do espírito de indignação, de insatisfação e de cidadania que tanto nos orgulha como brasileiros/as. Espírito que, por décadas, ficou esmaecido e latente em nossa população. Como versou um dos adultos entrevistados por uma repórter: “morro de orgulho dessa garotada”. Garotada que está tendo a coragem e a altivez, que está sendo compelida pelas paixões das utopias libertárias que nos mantêm vivos para afirmar e defender, contundentemente, os valores que dignificam a vida humana, os direitos que nos tornam verdadeiramente cidadãos/ãs.

O constelar das manifestações nos quatros recantos do Brasil traduz as vozes e gritos silenciados e sufocados que proclamam os anseios e direitos vilipendiados da maioria dos/as brasileiros/as diante dos desmandos e descasos da política instituída, do lamaçal de corrupção que devasta a nossa coisa pública. Traduz as posturas irreverentes da insubordinação, do inconformismo e do repúdio às lógicas predominantes da razão cínica que estruturam os poderes dominantes nas esferas da política brasileira. Os fluxos dessas rebeliões acendem o facho esverdecente da esperança no imaginário e na sensibilidade de nossa gente.

Esse espírito de indignação e de rebeldia projeta a coragem de arriscar, de desafiar, de labutar coletivamente pela dignidade humana; realça o senso de cidadania como expressão do cuidado com essa dignidade; descortina a defesa da paz e da solidariedade que nos possibilitam encontros e compartilhamentos humanos.

O país, como um gigante adormecido, parece despertar de seu berço esplêndido com os lampejos do esplendor da indignação cidadã que impulsiona os/as milhões de brasileiros/as, sobretudo da população mais jovem, que tem ido orgulhosamente às ruas denunciar tanto desrespeito aos nossos direitos fundamentais, tanto abuso e corrupção. Mas também tem anunciado bandeiras de luta coletiva, a necessidade premente de que precisamos nos unir para envidarmos ações políticas efetivamente democráticas e decentes que garantam o cumprimento dos direitos primordiais tão ludibriados e usurpados. Um denunciar e um anunciar que carece do arregaçarmos as mangas e caminharmos juntos, na singularidade de cada diferença, lutando por condições dignas de cidadania.

A explosão da indignação ocorre contra o vendaval de abusos aos nossos direitos sociais, contra a violência dos preconceitos e das intolerâncias dos fundamentalismos de natureza religiosa, sexual, de raça/cor...; contra os excessos da enxurrada de dinheiro público aplicado na copa do mundo, nas “arenas-circo”; contra os descasos para com os serviços de transporte, saúde, educação etc; contra o nevoeiro das corrupções e da ladroagem que grassam a coisa pública.

Nas intensidades das manifestações eclodem as vozes, os gritos que estavam ensurdecidos e entalados na garganta das pessoas. Gritos que rasgam as cortinas, visíveis e invisíveis, que instalam os processos perniciosos de opressão e de subordinação. Gritos que ressoam um BASTA retumbante. Basta de tanto cinismo, de tanto engodo, de tanta sem-vergonhice, de tanto descaso, de tanta roubalheira, de tanta demagogia, de tanto avacalhamento e mercadejação da coisa pública!

O descortinar dessas manifestações revela uma nova sensibilidade política que se contrapõe às (macro)estrututuras dos poderes instituídos, de esquerda e de direita, com seus perfis desfigurados e viciados, apresentando características supra ou transpartidárias. Os partidos tradicionalmente instituídos, de modo geral, têm demonstrado sua ineficácia e têm sido carcomidos pelos vícios dos podreres. Além desse tom, os/as protagonistas desse Movimento realçam posturas pluralistas de inclusão das mais variadas diferenças numa sensibilidade que traduz abertura e espírito dialógico, a afirmação da heterogeneidade e do altruísmo.

Os símbolos mais presentes nos cenários das manifestações são a bandeira nacional, flores, caras pintadas com as cores do Brasil, cartazes com textos e imagens, hino nacional etc. como dispositivos/repertórios culturais que agenciam os valores do espírito de cidadania, da solidariedade, da liberdade, da justiça, do bem comum.

O suscitar e o entretecer a teia vasta e potente dessas manifestações foi plasmado, sobretudo, mediante os dispositivos das redes sociais na seara da internet. O dinamismo, a instantaneidade e o perfil democrático dessas redes potencializam articulações múltiplas e eficazes que viabilizam agenciamentos de eventos gigantescos.

Infelizmente, em meio às intensidades das manifestações pacíficas e cidadãs, se infiltram algumas pessoas que não representam os/as protagonistas do Movimento, imbuídas apenas de seu instinto primário e hostil de destruição cometendo atitudes vandalistas através de ações violentas como a depredação do patrimônio público etc. Esses podem ser considerados os forjadores da bandidagem e do vandalismo clandestino, bem como, os que representam interesses escusos dos mais diversos grupos. Porém, precisamos também acentuar o cenário invisibilizado do vandalismo e da bandidagem oficial instituída que corroem o país através da grande maioria dos que exercem cargos políticos e que roubam deslavadamente devastando a nação. A diferença basilar é que estes se disfarçam astuciosamente nas máscaras maculadas dos seus paletós e gravatas, dos artifícios dos seus mandatos obliteradores da coisa pública.

Não podemos deixar de considerar a “violência simbólica”, e, portanto, dissimulada que a grande maioria desses políticos utiliza diariamente através dos procedimentos mais cínicos ao usurpar e dilapidar os direitos fundamentais da população em relação à saúde, à educação etc etc. Os exemplos, que todos/as conhecemos muito bem, são flagrantes. A roubalheira cometida por esses indivíduos depreda a coisa pública, e estes, de modo geral, continuam impunes, protegidos pela cortina de ferro dos podres poderes – dos prodreres.

As ações impertinentes e nefastas dos vandalismos nas manifestações parecem parodiar, de modo desnudo e desenvernizado, o turbilhão dissimulado das ações impetradas por esse vandalismo oficial que assola todo o país através das representações políticas que tanto nos envergonham.

Também considero relevante fazer referência e repudiar as posturas abusivas da polícia que, muitas vezes, age diante dos manifestantes de forma extremamente violenta, com ações insanas e monstruosas.

Como todas as ações e movimentos humanos, todo esse constelar das manifetsações implicam em riscos e perigos no pulsar de seus compassos; revelam paradoxos como desafios transversais a serem enfrentados. Que todos esses fluxos tensoriais e seminais possam ser catalisados/conduzidos de forma espirituosa, sensata e profícua no decurso de seus desdobramentos políticos - no sentido mais vasto e lídimo de política. E as ressonâncias desses desdobramentos já estão se descortinando nos quadrantes da política brasileira.

MIguel Almir

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