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Sem anos com Luiz Gonzaga

Contos e Crônicas - 05/12/2011

Miguel Almir Lima de Araújo

Em dezembro de 2011 comemora-se 100 anos de Luiz Gonzaga. Sua presença entre nós, em nossos imaginários, nas searas da música e da cultura nordestina e brasileira, é tão intensa e expressiva que se traduz em anos sem fim. Por isso, sem anos. Essa presença é transtemporal. Ultrapassa os limites do tempo cronológico. Atravessa os desvãos do tempo desmedido. Descortina o tempo da qualidade dos sentidos que se revelam em sua criação musical e poética. Sentidos que, portanto, não se reduzem às lógicas lineares e mensuráveis do tempo cronológico, da lógica do calendário. Suas criações/produções simbólicas se desbordam no tempo curvo da eternidade, do intangível – o tempo mitopoético.

Assim, além da esfera do tempo quantitativo, a presença da imagem mítica de Luiz Gonzaga, de Gonzagão, do velho Lua, penetra nas teias incontornáveis do tempo qualitativo em suas vertentes mítica e poética. Tempo mitopoético configurado com a força das estampas e dos desenhos das imagens, com a plasticidade e a robustez da poeticidade de suas letras e canções que atravessam o âmago dos sentires e paixões, das crenças e valores primordiais e fundos que compõem as cepas das vidas e da cultura dos Sertões.

A vastidão do manancial da produção musical e poética de Luiz Gonzaga é incontornável. Este sertanejo dos cafundós da Faz. Santa Luzia, nas quebradas de Exu, em Pernambuco, penetrou nas entranhas de nossa sensibilidade com a composição de suas cantigas, em seus tons mais variados, que re-velam as sagas dos povos sertânicos. Cantigas de xote, baião, xaxado, arrasta-pés, toadas etc. que traduzem, com espirituosidade e sutileza, bem como com primor e maestria, os sentimentos, os modos de vida, as folias e celebrações, as labutas e pelejas que movem e afirmam o cotidiano da vida dos nordestinos. Cantigas que realçam os repertórios fecundos de nossa identidade e diversidade cultural.

Luiz Gonzaga teve o primor de traduzir o Sertão em suas dimensões mais diversificadas acentuando suas características agridoces, agrestes e doces: suas securas e tristezas, suas mazelas e sofreres, como também suas festanças e alegrias, suas riquezas e bonitezas.

Em sua extraordinária “Asa Branca”, o velho Lua debulha e verseja a crueldade da seca que tanto assola a gente sertaneja, suas arribações do torrão natal pra outros rincões, as dores que cravam a vida desse povo em seus tão comuns e intensos ciclos de estiagens. Em a “Volta da Asa branca”, Gonzaga revela a intensidade das estações das chuvas, a contenteza dos povos sertânicos com o vicejar das águas esverdecendo a terra e as vidas. Com essas cantigas, ele realça os opostos complementares e interdependentes que perfazem as vidas sertânicas; que nos constituem.

Gonzagão também tratava com afinco de sua indumentária através de adereços e figurinos que se inspiravam nas tradições míticas da cultura sertaneja. No chapéu que usava com freqüência, trazia o símbolo de Lampião, as proezas do Cangaço como marco da resistência desses povos. Nos jaleques e blusões similares trazia o símbolo do vaqueiro como personagem mítico que perfaz as sagas cotidianas dos povos sertânicos, em suas pelejas pelas brenhas das caatingas espinhosas.

No final de sua travessia no meio de nós, com sua intuição farejadeira e com a fineza de sua espirituosidade, Gonzagão nos presenteia com a cantiga “Xote ecológico” traduzindo sua indignação diante da perversidade humana mediante atitudes que tanto desfiguram e degradam o ecossistema. Nesta, acentua também a expressividade da figura emblemática de Chico Mendes como aguerrido defensor da Ecologia.

Com o primor de sua sensibilidade, de seu espírito irrequieto e inventivo, Luiz Gonzaga engravidava suas inspirações para partejar as letras de suas canções nestes confins imensuráveis dos tesouros e do vigor das tradições culturais dos Sertões, do Nordeste brasileiro; nas intensidades do viver peregrino, das venturas bravias e celebrações que matizam essa gente sertânica. Flagrou com perspicácia as sutilezas, as proezas, os desalinhos, as veredas tortas, os desafios ingentes das sagas do destinar desse povo imbuído de sabedorias ancestrais que tanto nos nutre e encanta.

Os vôos das asas brancas, em suas idas e voltas, com o entoar de suas cantigas que tocam fundo nos desvãos de nossas almas, continuam e continuarão ecoando nas veredas dos Sertões do Nordeste, do Brasil e do mundo. A presença do símbolo mitopoético de Gonzagão, com sua obra imorredoura, descamba, em nossos imaginários sertânicos e mundanejos, pelos flancos da eternidade mítica. Sem anos com Luiz Gonzaga!

(novembro 2011)

Miguel Almir Lima de Araújo
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