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Sem chuva, até quando o sertanejo continuará a ser, antes de tudo, um forte?

Contos e Crônicas - 14/03/2017

A lembrança da imagem da vegetação verde no sertão baiano vai se apagando cada vez mais do imaginário do homem do campo. À sua frente, apenas uma paisagem triste, cinza e improdutiva, realidade oposta a do tempo de boas chuvas e da fartura das plantações.

Diante do cenário devastador, com os campos sendo transformados em cemitério de animais, restou a certeza de que, realmente, a esperança é a última que morre. Em todo o sertão baiano, agricultores mantêm viva a fé, a última semente capaz de germinar nesse solo tão castigado. Na lista de orações, a súplica por chuva ocupa o primeiro lugar.

Na hora do noticiário, todas as atenções se voltam para as previsões meteorológicas. Mas as informações só confirmam o que os olhos gastos pelo tempo aprenderam a enxergar com a experiência: nada de chuva, apenas sol, seguido do lamento diário e dos prejuízos que se acumulam dia após dia. O bom e velho homem do campo é sábio e sabe que a vontade de Deus é a ordem que impera.

Nos últimos tempos, olhar para o céu e rogar pela misericórdia divina tem sido a alternativa para amenizar o sofrimento e poupar os olhos da tragédia anunciada na terra. O que os olhos não veem o coração não sente, não é verdade? Não, não é!

Nunca antes a chuva foi tão desejada e teve um sabor e cheiro tão especial. Ao primeiro sinal de uma mudança no clima, e quando as primeiras gotas d’água tocam o chão, o coração do sertanejo se alegra novamente. Os bichos na roça, aqueles que ainda conservam sinal de vida, se inquietam. Em vão!

Os agricultores já entregaram suas próprias vidas ao destino. Vão perdendo as forças e se alimentando do fio de esperança restante. Avistam no pasto os últimos pés de palma e de mandacaru lutando para saciar os últimos dias de vida dos animais. Se observarmos bem, parece que estamos prestes a nos tornarmos protagonistas de um novo capítulo de Vidas Secas, com direito a todos os dissabores que a trama pode nos reservar.

Sem chuva, até quando o sertanejo continuará a ser, antes de tudo, um forte?

Josevaldo Campos é jornalista de formação e profissão, inclinado à publicidade e compositor nas horas vagas.

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