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Geometrias, escritas e gestos

Artes Visuais - 06/12/2010
Geometrias, escritas e gestos Geometrias, escritas e gestos

Coletiva de fim de ano da Galeria Arte Plural - Recife Até 30 de Janeiro de 2011

Artistas: Alberto Cunha Melo  (in memoriam)

             Almandrade

             Daniel Santiago, Humberto Magno, Fernando

             Vasconcelos e Roberto Botelho

 

 

 

Geometrias, escritas e gestos

 

Raul Córdula

 

Esta coletiva de fim de ano que a Galeria Arte Plural – um dos poucos espaços comerciais brasileiros especializado em fotografia de alta qualidade, e também em artes visuais presentes em circuitos alternativos – promove agora, tem dois sentidos. O primeiro é o da memória, quando coloca a arte de dois importantes e históricos artistas sessentões, Daniel Santiago e Humberto Magno, ao lado de dois “novos-maduros” como Fernando Vasconcelos e Roberto Botelho.

O outro sentido, não menos interessante, é a presença de Almandrade, artista baiano de Salvador – é preciso dizer isto porque hoje o interior da Bahia é pródigo de boa arte, haja vista Feira de Santana e o Recôncavo. A presença de Almandrade nos traz de novo a intenção de intercambiar nossa manifestação mais ativa deste mundo do Nordeste, e a sua geometria simbólica nos mostra como esta tendência da arte é tão perene, tão renovada na sua sutileza latinoamericana. Almandrade também é um artista que escreve sobre teoria da arte defendendo pontos de vista contemporâneos no seu conteúdo. É a primeira vez que o público do Recife verá sua obra.

 

Todos eles, de certa maneira, são geométricos, isto é, têm na geometria, exata ou sensível, a referência para pensar o mundo. Mesmo Fernando e Daniel, que se mostram mais gráficos que exatos, sugerem a geometria nas origens de suas criações, onde se sente o poema processo, o poema visual e a poesia concreta.

 

Fernando descende do binômio concretismo/neoconcretismo que tem origem no modernismo atuante no eixo (Rio/São Paulo) nos anos 50, embora ele não seja tão antigo. Este período nos trouxe também a poesia concreta que inspira esta série de pinturas que ele mostra agora, embora sua arte tenha por base uma geometria elegante e rigorosa. Mas justamente o grafismo espontâneo que hoje se vê nas ruas descende também, no seu caráter urbano, do grafismo industrial, da tipografia, da animação visual da metrópole, o que, em Fernando, se traduz nestes poemas derramados.

 

Daniel Santiago é  uma lenda viva na arte do Recife. Vanguardista nos anos 70 foi um pioneiro de novas mídias como a arte postal, a arte em “out door”, a xerografia, o cinema de artista e a arte digital.

Trabalhou ao lado de Paulo Bruscky mantendo a equipe Bruscky/Santiago, produzindo “happenings” – o equivalente a “performances há duas décadas. É importante sua presença nesta mostra, pois se trata também de seu retorno ao público que há muito não contempla sua obra no Recife. Daniel mostrará, no entanto, um trabalho mais recente e diferente do que estamos acostumados a ver, são desenhos a quatro mãos, em conjunto com o saudoso poeta Alberto Cunha Mello. Esta parceria, rara e preciosa, nos fala de como é intensa a relação interpessoal entre as poéticas artística e literária.

 

Humberto, advindo de uma geometria rigorosa, sua penúltima fase, se volta para o realismo da indústria utilizando como suporte embalagens de isopor aonde pinta suas composições. Com Almandrade, forma o conjunto tridimensional da mostra. Sua história artística inicia-se na Olinda dos anos 60, no Movimento da Ribeira, continua na Bahia onde criou e executou um mural em relevo para o centro Administrativo, ao lado dos mais importantes artistas baianos da época. Na Bahia Humberto se formou em arquitetura e exerce este mister atualmente no Recife

 

Roberto é o pintor por excelência, amante da cor e da estética moderna, de quando a retina era – e continua sendo – gratificada pela cor, pela harmonia, pela marca da mão e pelo surpreendente inesperado.

No Recife é publicitário, mas na sua carreira profissional sempre esteve ao lado da arte independente, isto é, não aplicada como é o caso da arte da propaganda. Seu vasto currículo se confunde com o de muitos artistas de sua geração que freqüentam as galerias com assiduidade.

 

Persiste, no entanto, um equívoco recorrente do tradicionalismo que ainda nos oprime, modernos que somos: trata-se da distinção entre arte geométrica e o simples ornato. Isto talvez seja gerado pela visão belasarteana que se impõe nas três principais categorias da arte acadêmica – figura, paisagem e natureza morta – sobre todas as outras formas de arte advindas do modernismo que já completa, desde o impressionismo, quase dois séculos de existência.

 

Escrevi no prefácio de uma exposição do amigo Braz Marinho, um geométrico contumaz: “A questão da arte geométrica não reside na forma, mas no conteúdo – o conteúdo da forma – que se revela na impressão de tensões produzida no olhar. Arte geométrica não é a arte da forma, não significa produção de formas em composições decorativas, mas a criação de poéticas construídas a partir do ritmo, da cor e do material expressivo, onde a forma geométrica pode ser a constante. Os artistas geométricos, embora pareçam ser artistas do “bom gosto”, do subjetivismo, da arte fácil e simplificada capaz de ser executada sem a participação do artista, embora pareçam designers, e não artistas estão envolvidos em questões filosóficas que os levam a plasmar idéias, mais que imagens.”

 

Recife é uma cidade cheia de vanguardas, desde o evento de 22, quando nossos representantes eram artistas de tendência construtivas – Cícero Dias com seu desenho judiciosamente diagramado na página que evoluiu para uma pintura geométrica nos anos 50, e Vicente do Rêgo Monteiro com sua figura geometrizada – passando pela arte geometria tropical de Lula Cardozo Ayres, pela obra de Aloisio Magalhães, misto de arte e design como foi o desenho industrial brasileiros no tempo de sua implantação feita pelo próprio Aloisio. Se prestarmos atenção, veremos contaminações geométricas na obra de Hélio Feijó, Abelardo da Hora e Corbiniano Lins, e do Mestre Ypiranga, por exemplo, nas suas bricolagens metálicas e vanguardistas. Na década de sessenta Montez Magno e Anchises Azevedo, e hoje temos, além de Braz e dos que são motivos deste comentário, José Patrício, Eudes Motta e Sebastião Pedrosa, por exemplo. Então esta arte geométrica e sua consequência, a arte de origem grafista, continuam existindo no Recife com força criativa e renovadora.

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