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Sandro Penelú

O boi que falava

29/03/2018

A rotina na fazenda era sempre a mesma: em grupo, eram tangidos para algum lugar; o pasto; o capim; o curral. Ver os seus amigos sendo mortos ou vendidos já não lhe abalava tanto quanto nos primeiros momentos em que presenciou essas cenas. Havia ficado duro, frio e ficava a se perguntar quando seria o seu dia, não obstante entendesse por que não o sacrificavam. Ele era o principal touro reprodutor e tinha uma importância gigantesca para o crescimento dos lucros do seu proprietário e mesmo havendo outra fazenda, também de sua propriedade, aquela era a que mais colaborava para o crescimento do seu capital, devido à qualidade dos seus animais reprodutores.

Mergulhado nessas e em outras questões e observando o comportamento de seus companheiros, que nem de longe pareciam compreender todo aquele processo, ele passou a prestar mais atenção aos sons emitidos pelas bocas dos vaqueiros... Inicialmente, foi percebendo que cada movimento da boca fazia vibrar no ar um som diferente e que, juntos, esses sons formavam algo que era responsável pela comunicação entre aqueles homens.

Aquele boi, durante vários meses, esperava ansioso pela chegada da noite, que era quando os vaqueiros se juntavam para jogar conversa fora e o silêncio reinante na natureza lhe permitia ouvir perfeitamente cada sílaba, cada som, cada palavra, só sendo interrompido por um ou outro mugido vindo dos amigos que, distraídos, se esparramavam pelo capim do pasto, ao tom prateado da Lua.

Seu coração acelerava descompassado, a cada som da voz humana que conseguia reproduzir, a partir de suas observações e treinos solitários. Ao término de onze meses, conseguiu a façanha de articular algumas frases e decidiu que aquele era o momento de ensinar aos seus amigos. E cerca de dois anos foram necessários para que toda a boiada tivesse aprendido a fala humana...

Naquela manhã, dois vaqueiros e mais alguns cachorros chegaram cedo para tanger a boiada. Contudo, nenhuma ordem foi acatada. Os vaqueiros gesticulavam, bradavam palavras específicas, mas os bois não saíam do lugar. Intrigados com o que estava acontecendo, entreolharam-se e se perguntaram o que havia ocorrido com aqueles bois e vacas. Não precisaram esperar muito tempo para ouvirem a resposta vinda da boca dos próprios bois:

            - Ninguém sairá daqui, a não ser para ganharmos a liberdade.

           Os vaqueiros arregalaram os olhos, diante daquela cena, completamente inusitada. Chegaram mesmo a achar que não passava de um sonho; um delírio... Entretanto, a continuação da fala, agora proferida por outro boi, deixou-lhes estáticos, pálidos e tremendo, como se estivessem presenciando uma alma penada. Ato contínuo, chegaram a se benzer ao mesmo tempo, num só movimento. Enquanto isso, os bois, liderados pelo touro reprodutor, prosseguiam falando:

 - Durante todos esses anos, vocês impuseram dor e morte aos nossos irmãos, apenas poupando a nós, os reprodutores, num crescente ato de interesses econômicos, usando-nos como uma mercadoria qualquer que lhes proporcionasse aquilo pelo qual vocês são capazes de passar por cima de tudo e de todos para conseguir. Agora que compreendemos a sua fala, conseguimos também entender todos os seus propósitos. Vocês são uma raça digna de pena. Com a mesma velocidade que conseguiram evoluir até chegar a viagens espaciais, conseguiram também descer ao abismo profundo de cada um dos que vocês chamam de humano.

- Mas... Mas, (gaguejava um dos vaqueiros, já amedrontado) nós somos apenas empregados. É o nosso trabalho.

Os bois cercaram os vaqueiros, que começaram a gritar e pedir socorro. Aos poucos, foram sendo pisoteados pelas patas pesadas dos bois. A morte lhes chegou lenta e cheia de agonia. Um deles, num último suspiro, chegou a pedir perdão aos bois e vacas pela forma como eles os tratavam. Toda aquela gritaria e zoada acordou o dono da fazenda, que correu para o local. Contudo, sequer conseguiu chegar a percorrer metade do caminho. A boiada partiu resoluta em sua direção, dando-lhe o mesmo destino dos seus vaqueiros...

Os bois caminharam resolutos, em direção à cidade. Suas figuras foram sumindo, na linha do horizonte, até que um silêncio de pedra tomou conta da fazenda.

Sandro Penelú