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André Pomponet

O meio ambiente como desafio para a Feira de Santana

27/09/2018

Feira de Santana tem palmeiras – plantaram-se muitas palmeiras imperiais nas últimas décadas e, aos poucos, elas vão crescendo, espichando-se, ganhando aquela graça solene que caracteriza as árvores adultas – e ainda têm sabiás. Pois bem: dia desses, numa distraída tarde de setembro, flagrei um sabiá numa palmeira na rua Campina Grande, transversal da avenida Maria Quitéria. Vá lá que a tarde não era de um azul impecável: havia nuvens que maculavam o entardecer que se avizinhava; algumas dessas nuvens, a propósito, exibiam aquele tom encardido das nuvens chuvosas.
Vá lá, também, que a permanência do sabiá na palmeira foi efêmera: em trânsito, ele pousou brevemente, com a suavidade habitual. Emitiu um trinado curto – parecia um apelo aflito – que encontrou o eco de uma resposta mais adiante. Por um instante ele examinou as cercanias com os olhos pretos, muito vivos. E, pouco depois, se lançou no ar acinzentado da tarde do inverno que findava, deixando atrás de si a frustração de quem não o viu cantar para confirmar o consagrado poema de Gonçalves Dias.
Quem se dedica a examinar as árvores feirenses às vezes se depara com surpresas agradáveis. O bem-te-vi pontua a paisagem; o chilrear alegre dos pardais constitui prazerosa trilha sonora; é sempre possível flagrar o voo azulado das andorinhas que, agrupando-se a partir da chegada da primavera, fazem o tórrido verão que se aproxima com o final do ano.
Mais raro é avistar o beija-flor. Há sempre uma emoção renovada em vê-lo: subitamente ele surge garimpando flores, com aquele voo singular que combina a graça da ave com a funcionalidade da máquina; depois do suave contato com a flor – uma carícia curta que desafia o olho do observador – ele desaparece numa manobra delicada e estabanada ao mesmo tempo.
Pombos e pardais
Observar pássaros pela Feira de Santana, porém, vai ficando cada vez mais difícil. Afinal, construções cinzas surgem todos os dias, revogando mais um pouco o verde que, noutros tempos, fazia da cidade um pouso agradável para o viajante. Árvores antigas vão fenecendo – com os maus tratos e o descaso – e não se veem novas plantas crescendo, lançando a perspectiva de substituí-las lá adiante.
Com elas, vão-se os pássaros. Mesmo os desprezados pardais, coitados, vão desaparecendo, apesar de sua impressionante capacidade de conviver com os seres humanos. Noutros tempos, era muito mais comum o pio alegre dessas aves nas manhãs feirenses. Vê-las em vadiagem contente, arriscando encantadoras acrobacias, diminuía a aspereza do cotidiano.
Todas essas aves vão cedendo espaço aos pombos que se multiplicam com velocidade impressionante pelo céu da Feira de Santana. No céu, mas também no chão: aonde se acumulam restos de comida surgem esses animais, destemidos, ousados, avançando com voracidade sobre qualquer migalha. São tantos que sua presença sufoca, principalmente no centro da cidade.
Questão ambiental
Datas festivas costumam ser propícias às celebrações, ao júbilo, às notícias positivas, como aconteceu com a Feira de Santana em 18 de setembro. Mas é necessário, também, aproveitar a oportunidade para pensar aspectos da vida da cidade, à medida que se disponha de espaço para fazê-lo. A questão ambiental é candente, não só aqui, mas mundo afora.
Por aqui há o imenso passivo do desmatamento, das áridas vias de circulação sem arborização, das lagoas que vão desaparecendo ao sabor das invasões tocadas por gente humilde, mas também por quem dispõe de poder econômico. Não é à toa que em boa parte do ano – mas, sobretudo, nos meses de verão – o calor se tornou insuportável, digno das porções mais áridas do planeta.
Apesar de tudo, celebremos, pois, a Feira de Santana no mês de seu aniversário. Mas mantenhamos a atenção para os problemas que se avolumam e que exigem intervenções cada vez mais urgentes. A delicada relação com o meio ambiente – negligenciada desde sempre – permanece como um desafio, sobretudo para a qualidade de vida e a própria sobrevivência das gerações vindouras.

André Pomponet