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André Pomponet

Casarão da Froes da Motta tem inspiração alemã

23/07/2018

Daquilo que ainda resta do rico patrimônio arquitetônico da Feira de Santana se destaca o casarão do intendente Eduardo Froes da Motta. O imóvel fica na rua General Câmara, aquela que liga as praças Froes da Motta e Nordestino, no centro da cidade. A construção é antiga e imponente: quem transita ali, pela rua estreita, não deixa de se impressionar com o porte, com os detalhes caprichados, com o padrão difícil de se ver no município, mesmo na primeira metade do século passado.
Não é para menos: quem teve a iniciativa da construção foi Agostinho Froes da Motta, em 1902. A ideia surgiu depois de uma viagem a Hamburgo, na Alemanha, quando decidiu fazer uma casa com planta equivalente. No ano seguinte o imóvel estava pronto. A responsabilidade pela construção ficou com o mestre de obras João Pascoal dos Santos. Em 1922 Agostinho morreu e o imóvel foi herdado pelo filho, Eduardo.
No ano seguinte Eduardo e a família passaram a residir no imóvel. Data da época uma série de intervenções: construção de varandas e janelas voltadas para a praça Froes da Motta, colocação de forro em estuque, além das pinturas a óleo que, hoje, constituem uma das principais atrações do casarão. A família passou a residir no local depois dessas intervenções.
Décadas depois – é o que registra publicação do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) –, entre 1950 e 1965, foram realizadas novas intervenções: o forro de estuque, que foi se deteriorando, foi substituído por madeira. O casarão passou também por obras de estabilização, com a construção de pilares em alvenaria de tijolo, o que conferiu maior segurança.
Caracterização
O imóvel, cuja área construída totaliza 527 metros quadrados, possui algumas particularidades apontadas no relatório do IPAC. É o que é possível constatar nesse trecho: “Sua planta, bastante larga e de pouca profundidade, repete o esquema de longo corredor central ligando os salões sociais à sala de jantar, neste caso, porém, de forma transversal”.
Adiante, nota-se que “o porão alto, elemento que deu à casa o conforto de sobrado, eliminando a umidade, proporciona também uma maior privacidade ao elevar o peitoril das janelas”. Outro elemento que o texto destaca é a varanda: “Elemento raro é a varanda articulando a área de serviço ao corpo da casa, encontrada apenas na Creche Infância Feliz, em Coração de Maria”.
Como todo mundo sabe, os antigos casarões das cercanias – que, durante décadas, funcionaram sobretudo como modestos hotéis e pensões que abrigavam viajantes em trânsito pela cidade – foram sendo demolidos, dando espaço aos funcionais imóveis comerciais. O documento caracteriza o entorno: “Os logradouros são constituídos por imóveis novos ou já alterados, de um ou dois pavimentos, com uso predominantemente comercial”.
Mais descrição
A descrição do casarão pelo documento do IPAC não se encerra aí: “Casa urbana de relevante interesse arquitetônico desenvolvida em um único pavimento. Apresenta corpo principal com planta retangular, recoberta por telhado de quatro águas”. Outros detalhes se referem à fachada: “Fachada principal parcialmente precedida de varanda, encimada pela platibanda com desenhos diferenciados e apresentando rico tratamento em modenatura”.
À época da última revisão do documento – julho de 2002 – destacaram-se as excelentes condições de conservação do imóvel. Há uma referência especial ao mobiliário, considerado muito bem cuidado. Apontava-se, também, um risco potencial à conservação: o falecimento dos proprietários e uma hipotética venda pelos herdeiros.
Esses temores, porém, não se confirmaram: hoje o vistoso casarão abriga a sede da Fundação Cultural Egberto Costa – vinculada à prefeitura de Feira de Santana – e as condições de conservação seguem satisfatórias, conforme percebe quem transita pelas imediações. Trata-se, a propósito, de um caso raro de patrimônio bem conservado no município, a exemplo da sede da prefeitura e do Centro Universitário de Cultura e Arte, vinculado à Uefs.

André Pomponet