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André Pomponet

Rede urbana Recôncavo

16/05/2018

Sábado passado (12) o sol irradiava uma luz festiva, puríssima, sob um céu de azul indevassável nas cercanias do Bessa e de Amélia Rodrigues. Foi uma dessas manhãs típicas de maio, em que o sol é caricioso e o dia resplandece num espetáculo de cores. Nela, o viajante que trafegava pela BR 324 pôde se extasiar com os infinitos tons de verde do capim viçoso, dos resquícios de Mata Atlântica que se encarapitam pelos morros e das árvores frutíferas – manga, jaca, coco e caju – que ornam a margem da pista.
Mas, por ali, o que chama muito a atenção são os caprichados cultivos de hortaliças. Alface, cebolinha, coentro, couve e salsa crescem – num verde vívido – em covas bem cuidadas e umedecidas pelas chuvas que caem com frequência desde abril.
É comum se deparar com um trabalhador em sua faina: colhendo hortaliças muito tenras nos inícios de manhã, regando quando as chuvas escasseiam ou cavoucando a terra preparando novas covas que, lá adiante, vão desabrochar numa maravilhosa demonstração de fartura.
O trecho de cultivo intenso é curto ao longo da BR 324 que margeia o Bessa e Amélia Rodrigues. Se resume a essas duas localidades, mas se expande também em direção a Conceição do Jacuípe – cuja plantação é afamada – e na direção de Oliveira dos Campinhos, às margens da BA 084, no caminho entre a Feira de Santana e Santo Amaro.
Chuvosa, com terra fértil e relativamente próxima a alguns dos maiores centros urbanos da Bahia – Salvador, Feira de Santana, Alagoinhas, Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus não ficam distantes -, aquela região poderia suprir esses mercados com seus produtos, impulsionando uma virtuosa cadeia produtiva.
Desde que os portugueses se consolidaram no Brasil que o entorno da Baía de Todos os Santos assumiu função estratégica na geração de riquezas. Primeiro com a cana-de-açúcar, especiaria que os lusitanos distribuíam pela Europa com lucros expressivos. Essa fase originou um ciclo econômico – o primeiro da nova colônia – e ajudou na ocupação da faixa litorânea do Nordeste.
Milton Santos
Por aqui, depois, veio o cultivo do fumo. Nunca assumiu a importância da cana-de-açúcar, mas contribuiu para um incipiente processo de implantação de unidades industriais da Bahia, por volta do século XIX. O produto se tornou uma das principais commodities produzidas em solo baiano, antecedendo a onda febril do cacau, que se expandiu mais ao Sul.
Esses usos do fértil e cobiçado solo do Recôncavo produziram o latifúndio e a monocultura. Ao longo do século XX – sobretudo ao longo da segunda metade – surgiram propostas de redesenhar o mapa produtivo da região, transformando a estrutura fundiária e incentivando a produção de alimentos. Essa guinada ampararia um fim estratégico: contribuir com a industrialização de Salvador e seu entorno.
Produzindo alimentos baratos – com produtividade elevada e condições de escoamento mais favoráveis – seria possível ofertá-los com preços mais baixos na capital, reduzindo o custo da mão de obra urbana. Isso iria favorecer a implantação de indústrias em Salvador e nas cercanias, diversificando a economia baiana e dinamizando-a.
O geógrafo Milton Santos – grande pensador da realidade baiana no início de carreira, nos anos 1950 – foi um dos entusiastas da ideia, defendendo-a em algumas publicações. Desde então, porém, nenhum governo abraçou a proposta, que foi sendo esquecida em livros e relatórios técnicos elaborados à época.
O cultivo de hortaliças que se dissemina em pequenas propriedades mostra que a ideia permanece viva e atual. Mas seria necessário o impulso estatal, na forma de um plano de desenvolvimento que estabelecesse linhas de intervenção, ofertando crédito, qualificação, infraestrutura logística – bem ou mal, já existente – e, o que é mais arrojado, uma política de reordenamento fundiário.
Mas vivem-se tempos ásperos. A barganha, o acerto de balcão – única mediação possível no falido sistema político brasileiro – e a crença ingênua na perfeição do “deus mercado” inibem iniciativas arrojadas desse naipe. Uma pena, pois uma rica porção do território baiano segue subaproveitada e o baiano nas grandes cidades paga caro pelo alimento que leva à mesa.
 

André Pomponet