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André Pomponet

A outrora fervilhante praça do Nordestino aguarda nova função

09/05/2018

A Praça Dom Pedro II – mais conhecida como Praça do Nordestino – é um dos espaços mais emblemáticos da Feira de Santana. Mais pelo que já representou no passado que, propriamente, pelo que significa no presente. O espaço margeia a engarrafada avenida Senhor dos Passos e fica muito próxima da rua Sales Barbosa, efervescente centro de comércio popular do município. É relíquia dos primeiros impulsos da expansão urbana, quando a cidade se desgarrava das cercanias da Praça da Matriz, espichando-se.
Nas décadas de 1980/1990 e no início dos anos 2000 o Nordestino era um dos principais destinos de quem transitava de ônibus pela Feira de Santana. Até os anos 1980, na Senhor dos Passos, os carros circulavam em mão dupla – aqueles blocos de concreto apelidados de “gelo baiano” separavam as duas faixas – e a circulação de pessoas por ali já era grande.
Não havia Feiraguai, o comércio não se expandira tanto em direção à Getúlio Vargas, tampouco haviam surgido os shoppings e centros comerciais: tudo isso fazia com que o feirense – e os eventuais visitantes – concentrassem o desembarque no Nordestino, já que o centro de compras era menos extenso. Abrigava-o, sobretudo, a Sales Barbosa, a Conselheiro Franco e as estreitas artérias próximas.
A demora ali era longa: os ônibus paravam no terminal e iam descendo homens, mulheres, crianças, idosos. Mais tarde, embarcavam com embrulhos, com utensílios domésticos, em demorados movimentos. Eram muitos ônibus: todos faziam um circuito pelo centro da cidade (o “Circular”) e havia roteiros específicos – o “Direta” – que só iam até o Nordestino. Praticamente todos passavam pela praça.

Pontos de Parada
Naquela época ainda não havia acontecido a reforma que substituiu o calçamento de paralelepípedos azulados por placas de concreto. E quem esperava condução não contava com abrigos. As dezenas de linhas distribuíam-se por quatro pontos de parada. Apesar da habitual demora, as viagens eram mais rápidas, porque a frota em circulação era muito menor e o trânsito, fluido.
As calçadas permitiam o trânsito livre, já que o País apenas ingressava na era feroz da economia estagnada, o que levou muita gente a ocupar os espaços públicos como camelôs e ambulantes para garantir o ganha-pão. A população feirense, inclusive, era muito menor: somente em 1990 se alcançou a marca dos 409 mil habitantes, conforme contabilidade do IBGE.
O comércio também era mais dinâmico naquelas cercanias: ambiente de circulação de milhares de feirenses todos os dias, as lojas registravam frequência, a freguesia aproveitava para examinar produtos, comprar pão numa padaria que funcionava ali, visitar um antigo supermercado já fechado, conferir preços nas sapatarias próximas.

Desolação
Hoje uns poucos ônibus despejam passageiros naqueles abrigos malconservados: praticamente todas as linhas foram desviadas, circulando pela Senhor dos Passos ou nem passando mais por ali. O Nordestino, portanto, perdeu sua função natural e hoje a praça padece sem os atrativos do passado. O comércio local, obviamente, sofre os efeitos, esvaziando-se.
Restam motoristas e mototaxistas que aguardam passageiros eventuais no estacionamento. Pardais piam animadamente nas árvores escassas. E dezenas de barracas oferecem produtos que se encaixam nos bolsos dos frequentadores mais modestos. Aos sábados, o ambiente fervilha com gente bebendo, comendo e conversando.
Placas anunciam cuscuz com ensopado; o colorido de uma marca de aguardente pintado nas barracas evidencia o patrocínio; há quem passe e adquira cigarro a retalho; quem bebe cachaça mastiga passarinha ou morde um pedaço de moela. No início do verão cajus amarelos repousam sobre os balcões metálicos. Há quem asse pedaços de carne em fogareiros metálicos.
Tráfego
O dinamismo do transporte público se deslocou para o Terminal Central, ali nas imediações do Centro de Abastecimento, contribuindo para esvaziar ainda mais o espaço. Muita gente aguarda no Nordestino a condução para fazer a baldeação por lá. Outros embarcam mais adiante, na praça Bernardino Bahia, o que contribuiu para reduzir ainda mais o fluxo pelo Nordestino.
Para quem viveu aqueles tempos, restam as lembranças que vão se apagando na memória, da cidade mais simples e mais hospitaleira. E a desolação por ver a praça, hoje, sem uma função, subutilizada. Quem chegou depois fica com a impressão desagradável da praça suja, feia, malconservada, com suas calçadas esburacadas e o lixo que se acumula nos finais de semana.
É evidente que não tem mais sentido resgatar o passado remoto que se refugia, impreciso, na memória. Mas é patente que a Praça Dom Pedro II – o nome é imponente –, o popular Nordestino, precisa de uma intervenção para revitalizá-la, atribuir-lhe um novo sentido, torná-la agradável para os feirenses. Fica a expectativa em relação à iniciativa.

André Pomponet